O sucesso da Apple, ao longo da última década, está diretamente ligado à capacidade de reinventar tecnologias já existentes. Foi assim com o iPod, tocador de música digital, lançado em 2001. Não foi diferente com o celular iPhone, de 2007, e com o tablet iPad, de 2010. A empresa de Steve Jobs, nesses três casos, foi tão bem-sucedida ao inovar e deixar esses aparelhos mais simples, bonitos, e fáceis de usar que uma multidão de consumidores ao redor do planeta se estapeou para comprar as geringonças tecnológicas desenhadas por ele, elevado à categoria de mago da inovação.
Agora, a Apple planeja lançar, na segunda-feira 6, um novo serviço que permite armazenar canções na internet. Batizado de iCloud, o serviço permitirá ao consumidor transferir sua coleção de músicas, provavelmente inclusive aquelas baixadas ilegalmente, para um computador remoto. Poderá também ouvi-las a partir de qualquer PC, iPhone, iPad ou iPod. Basta que os mesmos tenham acesso à web. “Em breve veremos o download de música como algo tão anacrônico quanto as fitas cassete”, afirmou o analista Ross Crupnick, da consultoria NPD Group, à Bloomberg.
A grande questão é: como a Apple vai inovar com o iCloud? Como aconteceu com o iPod, iPhone e iPad, em suas áreas, o conceito de armazenar música na internet prometido pelo iCloud não é novo. A rival Amazon, por exemplo, oferece o Amazon Cloud Drive. O anúncio oficial terá a presença de Jobs. Afastado do trabalho desde janeiro por motivos de saúde, esta será apenas sua segunda aparição pública neste ano. A primeira aconteceu em março, quando do lançamento do iPad 2. A presença de Jobs, além de ser uma oportunidade para saber se o executivo está se recuperando de seus problemas de saúde, aumenta as especulações para algo “revolucionário”. Por enquanto, pouco se sabe sobre o serviço, além do básico. De acordo com o diário The Wall Street Journal, a Apple, maior vendedora de música do mundo por meio da sua loja virtual iTunes Stores, lançada em 2003, teria fechado acordos milionários com a Warner Music Group, Sony Music Entertainment e EMI Group, três das quatro grandes gravadoras do mundo. Falta apenas a Universal Music, mas as negociações estariam avançadas.
O anúncio também é considerado como mais uma grande oportunidade de gerar receitas para o combalido setor fonográfico. Nos EUA, o maior mercado do setor, o faturamento das gravadoras desabou de US$ 14,6 bilhões para US$ 6,3 bilhões, em dez anos. Sozinha, a loja online da Apple responde por mais de 25% desse total. Durante anos, as gravadoras tentaram criar um rival para o serviço da Apple. Era uma forma de tentar reduzir o poder da marca da maçã no setor de música digital. Agora, mais uma vez, suas esperanças de mais receitas parecem estar nas mãos de Jobs.Paradoxalmente, a Apple não ganha dinheiro com a venda de música digital pela sua loja online. “Cerca de 70% do que a Apple arrecada com música online vai para as gravadoras”, afirmou à DINHEIRO Gerd Leonhard, autor de livros sobre o futuro da música na era digital. “O restante é gasto mantendo o serviço. Seu lucro vem da venda de hardware, como o iPod”. Desde 2001, a Apple já vendeu 300 milhões de iPods. Pela iTunes Music Store já foram baixadas 15 bilhões de canções. Agora, com o iCloud espera-se que o toque mágico de Jobs reinvente a forma de armazenar e ouvir músicas pela web. Menos que isso, será um grande fracasso.
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A caminho do Brasil: produção de chips, como os que serão utilizados pela Foxconn,dependerá da criação de uma cadeia de alta tecnologia Embora o R$ 1,5 milhão da Perceptia, dona de um faturamento anual de US$ 3,4 bilhões, seja pequeno comparado aos bilionários investimentos das líderes do mundo da tecnologia, o anúncio simboliza um movimento muito maior. Assim como a companhia californiana, um grupo de dezenas de pequenas e médias empresas de tecnologia começa a pavimentar o caminho para a chegada das grandes. “Nenhuma grande empresa do setor virá para o Brasil sem que exista uma estruturada cadeia de fornecedores”, disse à DINHEIRO Hector Ruiz, ex-presidente mundial da AMD, vice-líder mundial em processadores para microcomputadores, e atual CEO da Bull Ventures, consultoria para a área de tecnologia. “O País vive hoje uma oportunidade única. Tem a chance de estruturar uma indústria que gera riqueza de forma muita rápida e, quando começar a exportar, agrega valor e conhecimento à economia”, afirmou Dermot Barry, presidente da irlandesa S3 Group, que procura um local – e, evidentemente, incentivos – para se instalar no País. “O Brasil precisa disso e estamos preparados para contribuir”. A afirmação de Barry faz todo sentido – e o governo não esconde a preocupação com a inexistência de uma indústria de alto valor agregado e com a excessiva dependência da exportação de commodities. O setor que mais contribui em inovação tecnológica, o de semicondutores, é também o que mais impacta negativamente na balança comercial. Como o País não produz nada do que consome em microeletrônicos, o governo calcula em US$ 8,2 bilhões o déficit na importação de telas de LCD (US$ 3,9 bilhões) e de semicondutores (US$ 4,3 bilhões).
O problema brasileiro para alçar a indústria de semicondutores de seu atual estágio embrionário para o de tão sonhado competidor global é o longo caminho a ser pavimentado. O ambiente de negócios brasileiro não oferece condições para a instalação de uma fábrica de semicondutores, um investimento que varia entre R$ 1 bilhão e R$ 5 bilhões. Para assumir tamanho aporte, as empresas do ramo exigem generosas contrapartidas, como incentivos fiscais e tributários, sem contar infraestrutura de primeiro mundo. A chinesa Foxconn, por exemplo, enviou uma série de exigências ao governo brasileiro para implantar seu projeto no País.
As demandas vão desde a emissão imediata de passaportes para qualificação de 200 engenheiros na China à classificação dos tablets como notebooks – o que a Receita Federal tem resistido em fazer –, medida que reduziria em dois terços a carga tributária do iPad. O preço do aparelho cairia de R$ 2,3 mil para aproximadamente R$ 800. “Estamos adequando a legislação atual para possibilitar investimentos no Brasil, e o iPad é só um exemplo”, disse à DINHEIRO o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante. O relógio corre contra o governo. Uma resposta deve ser dada até o fim de maio, no anúncio da segunda edição do Plano de Desenvolvimento Produtivo. A nova política industrial do governo deverá ampliar a lista de produtos eletrônicos passíveis de incentivos. Caso contrário, investimentos como o anunciado pela Foxconn serão apenas fatos isolados.

